sábado, 24 de julho de 2010

Mecanismos de Ação do Álcool


Como explicado no post “Álcool - THE drug”, o álcool é uma droga muito utilizada pela nossa sociedade, estando presentes em várias ocasiões. Foram explicados aspectos gerais da droga, mas você sabe o mecanismo de ação da mesma em nosso organismo ? Por que os usuários apresentam disfunções motoras, de fala, de discernimento, etc... ? Por que em doses exageradas, pode levar à hipoglicemia, ao coma alcóolico ou até mesmo à morte? Como lidar com a situação ? Essas são perguntas que esse post tentará responder da maneira mais clara possível !




O álcool é uma droga psicotrópica, isto é, uma substância que atua no sistema nervoso central do organismo, causando modificações fisiológicas ou de comportamento. É considerado uma droga dose-dependente por apresentar diferentes ações em diferentes dosagens. Em quantidades moderadas, essa droga apresenta uma função estimulante que causa euforia, desinibição, alegria; porém, é verdadeiramente encaixada na classe de drogas depressoras, pois bloqueia consideravelmente o funcionamento normal do sistema nervoso. O córtex cerebral possui uma função integradora de estímulos e ações; função essa que é inibida sob efeito do álcool.
Resultado disso? Pensamentos desorganizados e confusos, perda de equilíbrio, de atenção, de memória, perdas motoras, letargia, confusão, amnésia, perda de sensações, dificuldade de respiração e até morte.



















A exposição ao álcool por um longo período de tempo é extremamente danosa ao nosso organismo.




O nosso sistema nervoso funciona, metaforicamente, como uma balança em equilíbrio, com neurotransmissores excitatórios de um lado e neurotransmissores inibitórios do outro. O álcool, assim como outras drogas, é um potencial desregulador dessa balança; porém, é considerada uma droga depressora, pois tende a aumentar as neurotransmissões inibitórias, diminuir as neurotransmissões excitatórias ou uma combinar as duas ações. As ações excitatórias do álcool, aquela desinibição inicial que os usuários sentem parecem estar associadas, pelo menos em parte, à supressão do sistema inibitório de transmissão.


Esses mecanismos de ação são bastante complexos e alvo de bastantes estudos da academia neurocientífica. Mas, nesse post, tentaremos transmitir esse conhecimento de uma maneira mais fácil.

O etanol, principal agente dessa droga, é capaz de afetar todas as células do organismo, mas grande parte de suas ações ocorrem em neurônios. Muitos estudos contemplam a influência do álcool na liberação de neurotransmissores como dopamina, serotonina, noradrenalina e peptídeos opióides (mas essas abordagens poderão ser feitas em outros posts, pois se se colocasse nesse, ficaria muito grande e cansativo!!). Uma das propriedades do álcool é de interagir com os lipídios da membrana neuronal, alterando sua permeabilidade, sua fluidez e a função de suas proteínas. Essas alterações podem prejudicar o funcionamento das bombas de Na⁺/K⁺ e das ATPases, o que compromete a condução elétrica. No entanto, as ações dessas drogas nos neurotranmissores são muito mais estudadas.

O ácido gama-aminobutírico (GABA) é o principal neurotransmissor inibitório do nosso cérebro e um dos mais afetados com a ingestão de álcool. O GABA fica armazenado em vesículas na extremidade distal do neurônio, até que um estímulo promova a fusão dessas vesículas com a fenda pré-sináptica e o conteúdo dessas vesículas seja liberado no espaço sináptico (releia o post de fusão dessas vesículas). Nos neurônis pós-sinápticos, estão incrustados os receptores GABAaérgicos (α-GABA e β-GABA), aos quais estão acoplados canais de cloro e associados receptores benzodiazepínico, o que forma um complexo funcional. O acoplamento do transmissor ao seu receptor promove um aumento na freqüência de abertura desses canais de cloro, permitindo um maior influxo deste íon para o meio intracelular, tornando-o mais negativo, promovendo hiperpolarização neuronal. Depois de algum tempo, o GABA se desprende de seu receptor e é retirado da fenda sináptica por bombas de recaptação, que os transportam para o neurônio pré-sináptico.


Com a ingestão de álcool, a molécula de etanol se liga ao receptor GABAaérgico, promovendo uma inibição do mesmo, o que causa relaxamento e sedação do organismo. O porquê desse relaxamento acontecer ainda não foi completamente elucidado, mas neurocientistas do Japão e dos EUA constataram a ação do álcool num tipo específico de canal iônico, chamado GIRK que, se abertos, permitem a eliminação de íons potássio, o que reduz a atividade neuronal. A diminuição da atividade cerebral nos dá essa impressão de relaxamento. A tolerância ao álcool pode ser explicada, dentre outros fatores, por uma tolerância ao aumento desse influxo de íons cloro.

Veja essa animação em: http://www.cerebromente.org.br/n08/doencas/drugs/gaba.htm

Essa droga pode, também, aumentar a atividade de moduladores de neurotransmissores inibitórios, como a adenosina (a ativação desse modulador causa sedação, enquanto a inibição causa excitação).


O efeito sedativo do álcool é devido à diminuição do sistema neurotransmissor excitatório, sendo importante sua ação no glutamato. O glutamato é principal neurotransmissor excitatório do nosso cérebro. Esse mensageiro químico age na célula pós-sinápticas, especial no receptor glutamatérgico N-metil-D-aspartato (NMDA). O principal efeito do álcool, em relação a esse neurotransmissor, é interagir com os sítios de ligação de glicina (aminoácido co-agonista para a abertura dos canais iônico e consqüente hiperpolarização). Dessa maneira, a neurotransmissão glutaminérgica excitatória é reduzida, causando o efeito depressor do álcool. Outra maneira de abordar o efeito depressor do etanol é entendendo que o etanol parece inibir a entrada de cálcio pelo canais iônicos, o que diminui consideravelmente a liberação de neurotransmissores. Pode-se explicar situações de abstinência citando que, com a retirada do etanol, esses canais iônicos aumentariam o influxo de cálcio e, conseqüentemente, causariam uma neurotransmissão hiperestimulada, o que acometeria nos sintomas da síndrome de abstinência. A retirada do etanol também pode fazer com que as vias glutaminérgicas superexcitem o SNC o que pode causar convulsões, ansiedade e delírio.

A metabolização do etanol a acetaldeído no nosso organismo produz muito NADH, o que desloca a reação de transformação do piruvato a lactato no sentido de utilização do piruvato, pois o NADH é reagente dessa segunda reação. Assim, o piruvato que deveria ser utilizado na regulação da glicemia pela gliconeogênese não estará tão disponível, pois foi transformado a lactato. Dessa maneira, o paciente apresenta um quadro hipoglicêmico, podendo ser deveras grave que falte energia para o cérebro, o que é respondido através de desmaios, coma alcóolico e, se não tratado, pode levar até à morte! Portanto, se algum(a) amiguinho(a) seu(sua) estrapolar nas doses, leve-o(a) imediatamente a um atendimento médico para que a glicemia dele(a) seja normalizada através da utilização de soro glicosado intra-venoso [CUIDADO CASO ELE(A) SEJA DIABÉTICO(A)]. Leia mais no blog BIOQUÍMICA DO ÁLCOOL.

É isso, foram apresentados nesse post alguns mecanismos de ação do álcool ! Algumas alterações neurofarmacológicas (contempladas ou não nesse post) estão apresentadas no esquema abaixo!



Até a próxima !

Felipe Martins - MED 91






Referências Bibliográficas
- http://www.cerebromente.org.br
- http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1516-44462004000500010
- http://pubs.niaaa.nih.gov/publications/arh21-2/144.pdf
- http://www.portalsaofrancisco.com.br/alfa/drogas/alcool6.php

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